Bem-vindos!

Toda noite, antes de dormir, penso em vocês, e programo algo bem bonito para postar. Assim, vou dormir feliz, com pensamentos bons.
No dia seguinte, após acordar e fazer o que costumamos fazer nas manhãs, sento-me e posto algo bem bonito para vocês.
Assim, meu dia começa bem!

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Um texto do Jabor


BOM DIA!!! Eu tenho um caderno de recortes, agora menos abastecido pois leio mais pequenos textos pela internet. Um dos recortes foi esse texto do Jabor. 

O apagão me lembra as tristes luzes da infância






Quando tive sarampo, puseram um papel vermelho na lâmpada do teto. O quarto todo ficou todo inflamado, rubro como eu. Por quê? Mandinga caseira para igualar minha doença com o mundo lá fora?
Da rua vinham ruídos remotos: cachorro latindo, o pregão do vassoureiro, gritos de crianças, vizinhas conversando, cigarras. A tarde caía negra e roxa... Agora, 50 anos depois, estou de cama, com antibióticos e cortisona, escrevendo com dedos trêmulos... Virose renitente. Mas acho que meu mal vem das bactérias da política, que minha moléstia é um apagão defensivo contra o espetáculo de incompetência e sabotagem que assistimos, contra o show de barbalhos, acms e itamares... No entanto, esta escuridão que nos ameaça me trouxe funda nostalgia da infância.
Nós morávamos em casa de subúrbio, pequena, com quintal, galinha e mangueira. Tudo era baldio em volta, toda a precariedade do subúrbio, em preto-e-branco, tímida, era visível a olho nu. Tudo era cambaio, troncho. Hoje, esta pobreza é disfarçada pela falsa vertiginosidade do progresso...
As noites eram mais escuras. Volta e meia, faltava energia; tudo se apagava de repente (com gritos de 'Aiiii!') e minutos depois a luz voltava, com um 'ahhhh!' geral de alívio ouvido na vizinhança.
Era curta minha paisagem noturna de menino: rua, poste amarelo, fogueira no capinzal, a luz verde no rádio de meu pai, onde eu ouvia o 'Anjo' (não havia ainda a janelinha da TV Tupi), a luz da Santa Terezinha de minha mãe no corredor, a luz da estrela de néon da cervejaria Princesa que meu avô me mostrava, a luz do carbureto do pipoqueiro, a luz nas poças, com a lua tremendo na água, balões coloridos no céu, trêmulos de lanterninhas, balões-tangerina, balões-charuto, balões cravejando o céu como galáxias brilhantes. De noite, eu era um menino triste, olheiro, pelos cantos. De dia, meu grande consolo era que o sol era meu, a chuva era minha e chegava de longe, por atrás das grandes choronas onde urubus pousavam na neblina, minhas eram as nuvens-camelo, as nuvens-girafa, as nuvens-cavalo e eu as desenhava deitado no chão de terra onde as formigas eram minhas, os caramujos nas folhas eram meus, sua gosminha madrepérola era minha, as jaboticabas, as mangas-rosas eram minhas, tudo era parte de um universo coerente, feito para mim, minha irmã, minha mãe, pai, avós, tudo era meu cenário, meu teatro, meu mundo pleno e sólido, eu, árvore, passarinho, cachorro, jaboticaba, terra, chuva, tudo era uma coisa só...
Isso me consolava e fortalecia, pois eu já percebia vagamente algumas dramáticas fissuras na vida de minha família, uma infelicidade latente na sala, choros e gritos atrás da porta do quarto, meu pai chutando o sofá decô de minha mãe em prantos, enfurecido, pois ela tinha saído sem meias nylon, o rosto de meu pai, feroz militar voltando de vôos de avião com capacete e macacão e eu vendo através disso tudo alguma coisa frágil em nossa vida que não ia dar certo e que eu não entendia bem o que era. Mas, toda a melancolia da noite familiar, eu esquecia de dia, com as flores vagabundas, os galhos da mangueira, os chutes, as correrias, que davam-me a certeza de estar num mundo claro, meu.
Um dia, começaram a falar de 'eclipse'. O que era isso? Ia acontecer o mais importante 'fenômeno', o maior eclipse da historia da ciência, o eclipse total do sol e o Brasil era o lugar ideal para observá-lo. Me explicaram e eu não entendi. Eu tinha uns seis anos. E começaram a chegar cientistas estrangeiros, aparelhos, comitivas que o rádio celebrava. O Brasil se sentia importante, pois servia ao menos de camarote de eclipse.
Eu fui para o quintal, olhar o céu. Mandaram-nos quebrar garrafas e enfumaçar cacos de vidro para ver o sol sem ficar cego. 'Se bobear, fica cego!'. A molecada olhava o céu. Até que aconteceu. O rádio berrava a hora H, como narrando um jogo de futebol... 'Olha lá, olha lá!...Tá chegando!....' E o sol foi sendo invadido por uma sombra, e tudo ficou negro de repente no meio do quintal. Caiu uma noite súbita, cinzenta, sinistra - por quanto tempo? Os passarinhos pararam de piar, as folhas ficaram pretas, o vento ficou visível, minha casa se apagou ao fundo, com meu pai, minha mãe e as empregadas na varanda, todos olhando para cima, com cacos de vidro na mão e eu fiquei olhando minha família. E, então, eu vi, vi, no escuro do eclipse, a fragilidade daquelas pobres pessoas de subúrbio, eles, eu, batidos por um vento frio, trêmulos de espanto com o céu, nós todos, ali, desamparados. Baixou-me um estranho sentimento que hoje eu interpreto como tristeza, como uma sensação de que a casa, minha mãe, papai de uniforme de capitão, minha irmãzinha chorando, a triste empregada com pano branco na cabeça, as árvores, as galinhas, tudo ia passar, de que nós íamos nos apagar também, pois tudo tinha ficado mais longe, como os urubus mais longe, quase no infinito, na bruma. Hoje, entendo que a minha família ali, minha vidinha de criança, foi deslocada de repente pelo eclipse... O sol não era mais meu, o céu, as árvores com urubu, meus pais, nada era fixo, nada era nosso; eu senti que nossa pobre família viajava num tempo escuro, sem controle, como um barco na correnteza das noites e dias. O mundo tinha vida própria, o sol não se importava conosco, éramos desamparados. Havia gente mais importante que nós, os estrangeiros, os cientistas, e nós ali, de cara para cima, olhando um céu preto.
Hoje, no Brasil, nos sentimos assim: Deus não é mais brasileiro, a natureza não é nossa mãe, ignora-nos, como as elites seculares. Com o racionamento, descobrimo-nos sozinhos, sem luz, sem nada. Há 54 anos, com o eclipse, vi o drama de minha família da classe média dos anos 40. 'Fenômeno', falava o rádio. Que é 'fenômeno'? Descobri confusamente que 'fenômeno' éramos nós...


 Jornal O GLOBO - 25 de junho de 2001

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